Fenômeno da literatura brasileira dá um tapa na cara da extrema-direita de Portugal

Um convite à leitura que chega a ofender (?)

9/28/2026

Primeiro: oi.

Tudo bem?

Um Defeito de Cor, romance de Ana Maria Gonçalves publicado no Brasil em 2006, chegou às livrarias portuguesas pela Bertrand em 17 de setembro deste 2026. Mineira como eu, a autora nasceu em Ibiá, no ano de 1970; é sempre relevante reconhecer ao mineiro a sua mineiridade.

Em 2024, Marcelo Rebelo de Sousa, então presidente de Portugal, disse que o país deveria "pagar os custos" do passado colonial. Em resposta, o governo do primeiro-ministro Luís Montenegro recusou-se a iniciar qualquer processo de reparação, e o Chega, partido de extrema-direita, propôs acusar o presidente de traição.

O "raciocínio" por trás disso é mais ou menos este:

Premissa: o passado colonial ficou no passado.

Conclusão: ninguém no presente deve nada a ninguém.

Premissa: quem sugere o contrário ofende a nação.

Conclusão: é traidor, então, pá.

É, eu sei. Não estamos diante de uma cadeia de raciocínio especialmente sofisticada. E quem esperaria algo assim do Chega? "Chega", o melhor nome em que puderam pensar.

Chega. Pois é.

Mas façamos a nossa parte em prol de alguma profundidade, pois o passado em questão (a violência colonial e o tráfico negreiro) tem seu inegável peso.

Entre os séculos XVI e XIX, milhões de africanos sequestrados cruzaram o Atlântico em navios de bandeira portuguesa, sobretudo rumo ao Brasil. É nessa travessia que Um Defeito de Cor coloca Kehinde, personagem sequestrada aos 8 anos no Reino do Daomé, atual Benin, e escravizada na Ilha de Itaparica, na Bahia.

Em 2024, o livro se tornou enredo da Portela e, segundo a editora Record, as vendas na semana seguinte ao desfile foram dez vezes maiores que as da semana anterior. Em 2025, foi o mais votado entre os cem especialistas que o jornal Folha de S.Paulo convidou para apontar os melhores livros brasileiros do século 21. Em 7 de novembro do mesmo ano, Ana Maria tomou posse na Academia Brasileira de Letras como a primeira mulher negra a integrá-la.

No discurso de posse, Ana Maria Gonçalves lembrou que a exclusão das mulheres na Academia começou como "um acordo entre cavalheiros", já que nada no estatuto a impunha. Guardei a expressão, à época, e agora penso que ela serve também ao primeiro-ministro português (ainda o mesmo desde 2024): a recusa da reparação me parece mais um desses acordos fadados à vergonha autoinfligida, firmado por quem sempre esteve do lado mais confortável da história. E da espada também.

Bom, este deveria ser um texto sobre a publicação de Um Defeito de Cor em Portugal.

Na prática, Kehinde está agora nas livrarias do país cujos navios arrancaram milhões de pessoas de suas casas. Contando sua própria história, em primeira pessoa. Um tapa na cara da moralmente indefesa extrema-direita portuguesa, nisso tão parecida com aquela que temos em Terra Brasilis. E um convite ao incômodo exercício da leitura, é claro.