
Como o povo brasileiro humilhou a Meta, Donald Trump e os Bolsonaro, ou: A incrível história das eleições do Brasil em 2026
10/26/2026
Emanoel.
Segunda maior democracia do Ocidente, o Brasil é leão gigante demais para o quintal dos Estados Unidos.
Primeiro: oi.
Tudo bem?
Eu dizia que o Brasil não cabe no quintal dos EUA. Donald Trump, um homenzinho fundamentalmente patético (disso nem mesmo os mais chegados devem, secretamente, discordar), de vez em quando entrega ao mundo sinais de seus constrangedores delírios de grandeza. Um deles foi tentar intervir nas eleições brasileiras de 2026, após declarações do secretário de Estado Marco Rubio a respeito de uma América Latina que “seria seu quintal”. Estaria Rubio, em algum grau, consciente de quão risível é?
No último domingo, 25 de outubro, o Brasil impediu que conspiradores inimigos da Constituição de 88 tivessem uma nova chance de se impor à força. Àqueles que se esqueceram: o ex-presidente Jair Bolsonaro está preso porque planejou um golpe de Estado após perder as eleições de 2022 para Lula da Silva; o plano, desvelado pela Polícia Federal, envolvia o assassinato do presidente eleito por envenenamento, o fuzilamento do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, e a explosão de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal.
Por que os EUA apostaram no cavalo errado
No pleito de 2026, Flávio Bolsonaro, o filho do ex-presidente presidiário, foi o escolhido para representar os interesses da burguesia brasileira e do desespero dos Estados Unidos pelas terras raras, tão importantes em sua disputa geopolítica contra a China. Uma péssima escolha: com fartos indícios de seu envolvimento com criminosos no Rio de Janeiro, incluindo assassinos de aluguel, o senador foi flagrado, em mensagens reveladas pelo Intercept Brasil, cobrando do banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista do maior escândalo de fraude bancária da história do Brasil, parte dos 134 milhões de reais prometidos para financiar Dark Horse, filme sobre o próprio pai.
Faltaria espaço para outras tantas questões criminais envolvendo esse típico gângster brasileiro, como o fato de que ele e sua família compraram nada menos que 50 imóveis com dinheiro vivo cuja origem é impossível rastrear; apenas a mansão onde ele mora foi adquirida por 6,2 milhões de reais, uma aquisição flagrantemente incompatível com os rendimentos de um senador.
Por que o povo brasileiro identifica o bolsonarismo como inimigo
Muito à vontade para manifestar sua agenda antipovo, Flávio Bolsonaro propôs um corte geral em gastos públicos, se opôs ao fim da escala 6x1, acenou para a privatização de importantes empresas públicas e garantiu a Donald Trump que o Brasil seria a “solução para o problema dos Estados Unidos com as terras raras”.
Como os EUA se intrometeram nas eleições brasileiras
A interferência da desqualificada administração Trump no processo eleitoral brasileiro foi denunciada pelo jornal The New York Times neste artigo de opinião.
“A interferência externa nas eleições de um Estado democrático é antidemocrática: os norte-americanos, afinal, não fazem parte do corpo político brasileiro. Subjacente às intervenções do governo Trump está a mensagem desrespeitosa de que os norte-americanos pensam que sabem melhor do que os brasileiros o que é melhor para o Brasil”, diz um trecho.
Já nesta publicação, especialistas da ONU alertaram para a interferência da Meta, big tech estadunidense responsável pelo Instagram e pelo WhatsApp.
A “assimetria algorítmica”, como a chamaram os especialistas das Nações Unidas, já havia sido notada pelo povo brasileiro: publicações relacionadas à campanha popular por Lula da Silva tiveram seu alcance orgânico travado pelo algoritmo do Instagram, ao passo que as mais corriqueiras publicações relacionadas à campanha de Flávio Bolsonaro alcançavam vertiginoso sucesso na obscura distribuição de conteúdo da plataforma.
O maior exemplo é o do deputado federal Nikolas Ferreira, um jovem cuja participação na vida política da Câmara dos Deputados é quase nula, condenado na Justiça por transfobia. Durante o período eleitoral, suas publicações superaram, no Instagram, o alcance de figuras como Cristiano Ronaldo, Lionel Messi e Kim Kardashian. Não por acaso, os mesmos vídeos obtiveram alcance não mais do que regular em seus perfis do YouTube e do TikTok. Percebe?
Como o povo brasileiro pisoteou a Meta
Em abril, o deputado André Janones criou no WhatsApp um canal chamado Exército do Lula, que nasceu com cerca de 50 mil participantes e chegou ao fim da campanha com mais de 10 milhões. Digo: mais de 10 milhões de brasileiros recebendo material e “missões” diárias para cumprir nas redes, furando o bloqueio do Instagram por dentro de outra plataforma da própria Meta, e indo além: reforçar hatshtags no X, o antigo Twitter; engajar em lives no Youtube, estimular pesquisas com informações obscuras (e o cardápio era farto) sobre a biografia do adversário.
A pedido da campanha de um agora desesperado Flávio Bolsonaro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques (indicado ao Supremo, vale lembrar, por Jair Bolsonaro), mandou suspender o canal mais de uma vez, mesmo sem verificar irregularidades. O Exército do Lula voltou ao ar depois de registrado na Justiça Eleitoral, uma exigência de última hora que especialistas consideraram ilegal. Pouco depois, veja só, a Meta precisou reconhecer não ter encontrado nele irregularidade alguma.
E teve o poder assombroso das ruas, é claro, em mobilizações que já entraram para a história do Brasil. No dia 11 de outubro, uma semana depois do primeiro turno, Lula discursou para milhares de pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo, e no feriado do dia seguinte houve atos em mais de dez cidades. Em Belo Horizonte, minha terra natal e capital do segundo maior colégio eleitoral do país, a caminhada com Lula na quarta-feira, 21, arrastou cerca de 200 mil pessoas. Na minha leitura, o maior ato político da história da cidade. Cenas tão impressionantes como esta aconteceram, na verdade, ao longo de todo o segundo turno, e de norte a sul do país.
Por que Flávio Bolsonaro não aceitou a derrota
Em resposta à atitude antidemocrática de prefeitos aliados ao bolsonarismo, o partido de Lula da Silva recorreu ao Supremo Tribunal Federal pedindo que o período de votação fosse estendido por mais 2h, a fim de que os eleitores tivessem tempo de chegar às suas seções. Logo a seguir, especulo que, temendo não se posicionar diante da clamorosa repercussão negativa na mídia e nas redes sociais, o partido de Flávio Bolsonaro também solicitou a extensão do prazo. O ministro Cristiano Zanin, do STF, prorrogou a votação até as 19h nas seções que ainda estavam abertas.
Divulgado o resultado, Flávio Bolsonaro chamou de “sacanagem” o que tinha acontecido e não reconheceu a vitória de Lula da Silva. O argumento central é que a prorrogação teria alterado as regras com a votação já em andamento. O grande furo desse protesto: segundo levantamentos feitos com dados do TSE, não chegaram a 35 mil os votos registrados depois das 17h, num pleito decidido por mais de 4 milhões de votos de diferença. E nem falemos sobre o fato de sua chapa também ter solicitado a prorrogação. Trocando em miúdos: uma conversinha de mau perdedor.
Davi contra Golias? Pense melhor.
Não se pode dizer que foi uma vitória de Davi contra Golias. Por um lado, porque o gigante dessa história é a classe trabalhadora brasileira, não seus inimigos; por outro, porque a camarilha de conspiradores, ratos movendo-se nas sombras, nem de longe alcança a diminuta estatura que tem Davi no texto bíblico.
Nesta foto, sorri ao lado da minha mulher e da minha filha. Lá fora, havia fogos de artifício no céu e o povo gritava ser o dono de seu próprio país; descobrimos que não há quem grite mais alto que um povo que é dono de seu próprio país. Juntamo-nos a eles pouco depois.


As pesquisas indicavam o crescimento de Lula. Na véspera da votação, apesar disso, Datafolha e Quaest ainda davam a Flávio Bolsonaro 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula, empate técnico dentro da margem de erro. Abertas as urnas, Lula, que tinha terminado o primeiro turno com 45,16%, terminou o segundo com 51,79%, saltando de cerca de 53,9 milhões para mais de 64 milhões de votos. Nenhum candidato a presidente tinha revertido no segundo turno a desvantagem do primeiro. Nenhum. Mas nenhum operário havia chegado à Presidência, é verdade.
A última e desesperada tentativa do bolsonarismo
Diante da possibilidade de derrota que já se sentia no ar, prefeitos bolsonaristas por todo o Brasil, em cidades com histórica predileção por Lula da Silva, não colocaram ônibus do transporte público integralmente à disposição das pessoas no domingo de votação, como determina o Supremo Tribunal Federal. É tosco? Sim. É criminoso? Por óbvio. Mas não é exatamente uma novidade.
Em 2022, quando Jair Bolsonaro era o presidente, a Polícia Rodoviária Federal recebeu ordens de seu diretor-geral, o hoje presidiário Silvinei Vasques, para dificultar que eleitores em regiões de maioria lulista chegassem às seções de votação.
É a isso que os Estados Unidos da América se aliaram.
