
Jorge Amado, um comunista raiz
10/8/2026
Tenho inveja dessa baita frase do gênio Jorge Amado, autor de Capitães da Areia e Gabriela, cravo e canela.
Primeiro: oi.
Tudo bem?
Eu dizia que tenho inveja dessa frase do Jorge Amado. Queria tê-la escrito. Está na abertura de Cacau, de 1933:
Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia.
Um mínimo de literatura para um máximo de honestidade. Pegou?
Não, leia de novo. Com a devida entonação, com os olhos fechados, com a mão no coração.
Um mínimo de literatura para um máximo de honestidade. E agora?
Escritores conhecem bem a tentação de enfeitar, de adjetivar... E em Cacau, logo na abertura, damos de cara com o aviso de que o bonito pode esperar.
Jorge Amado nasceu em 1912 numa fazenda em Ferradas, no sul baiano. Era filho de um coronel. Pela lógica da origem, seria razoável esperar dele um livro sobre a casa do patrão, mas preferiu escrever sobre quem trabalhava a terra.
Em 1932, já radicalizado, Jorge entrou para o Partido Comunista, sensibilizado com as desigualdades do Brasil. O termo radical vem de raiz, e por isso a esquerda radical (os comunistas) é classificada assim: porque aponta o próprio capitalismo como raiz da desigualdade, defendendo em razão disso que ele seja superado.
Aliás, empregar o mínimo de literatura e o máximo de honestidade, para mim, também é uma postura radical: remover da realidade crua os enfeites e romantizações que tanto interessam aos opressores como forma de distração.
Karl Marx escreveu que a vida concreta é o que molda a consciência de alguém. Ou seja: dono e empregado olham o mundo de lugares diferentes, com interesses díspares e, às vezes, até antagônicos. Existe, silenciosamente ou não, uma disputa que se impõe.
Jorge Amado sabia que muita gente ainda não tinha consciência disso. E eu não acho que tenhamos avançado muito nessa consciência, também chamada de consciência de classe. Por exemplo: o trabalhador que vota num político contrário ao fim da escala 6x1 está defendendo o interesse de outra classe que não a sua; esses trabalhadores são, à luz do 1º turno das eleições de 2026, mais de 61,7 milhões, sem contar aqueles outros (33 milhões apenas) que julgaram não ter opinião formada a respeito de tudo que está em jogo e, por isso, ausentaram-se das sessões eleitorais.
Bom, Jorge Amado também defendeu os interesses de uma classe que não era a sua, afinal. A diferença é que ele sabia disso.
Eleito em 1945 para a Assembleia Constituinte, o escritor fez constar na Constituição de 1946 o texto que assegurava o livre exercício dos cultos religiosos, regra que a Constituição de 1988 retomou quase com as mesmas palavras.
Muitas gerações depois, Jones Manoel, nascido na favela da Borborema, no Recife, foi eleito neste 2026 para a Câmara dos Deputados. Defende abertamente o fim do capitalismo em seus livros e nas redes sociais: o mínimo de enfeite, o máximo de honestidade.
Que inveja eu tenho dessa frase. Do que Jorge Amado fez com ela, mais ainda.
Emanoel.
