
Três vezes em que a Academia Brasileira de Letras votou pior que um CLT bolsonarista
10/1/2026
Há votos que nunca vou entender.
Primeiro: oi.
Tudo bem?
O trabalhador da escala 6x1 que elege quem vota pela manutenção desse regime desumano está longe de ser um personagem plano. Ao contrário: reúne complexidades mil. Tão curiosos quanto ele são alguns pleitos históricos da Academia Brasileira de Letras, composta por um eleitorado de número bastante limitado que decide em escrutínio secreto que candidata ou candidato será admitido junto deles.
Pouca gente sabe de que modo alguém se torna "imortal", como são chamados os membros da Academia. O processo lembra menos um prêmio literário que uma campanha: o interessado envia uma carta ao presidente da Casa e, segundo essa reportagem do Intercept Brasil, convém que já tenha aliados e padrinhos entre os acadêmicos antes disso; nos meses que antecedem a eleição, a tradição manda visitá-los. A obra? Bom, ela entra na conta, claro. Só não entra sozinha.
Daí que há pelo menos três ocasiões que são, no mínimo, desastradas.
Em 1958, Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas, perdeu por 27 a 10 para Afonso Arinos, então deputado da UDN, partido anticomunista apoiado pelas elites agrárias.
Rosa só se elegeria em 1963, e ainda adiou a entrada por quatro anos, com medo de que o coração não aguentasse. Tomou posse, finalmente, em 16 de novembro de 1967 e... morreu de infarto três dias depois.
Em 1980, a mesma Academia reconheceu Mário Quintana com o Prêmio Machado de Assis. Mas, meses depois, deu-lhe 6 votos contra 31 de Eduardo Portella. Isso mesmo: 31.
Portella tinha sido ministro do ditador João Figueiredo (e, justiça seja feita, foi demitido depois de apoiar uma greve de professores). Segundo o jornalista Jayme Copstein, Antônio Houaiss chegou a pedir que Quintana desistisse do pleito, para blindar Portella; é que os membros da ABL pretendiam dar um recado político à ditadura, elegendo um de seus mais recentes desafetos. Contudo, o poeta ficou na disputa, pois achava que isso tornaria ainda mais significativa uma vitória do ex-ministro.
Só que Mário Quintana ainda perdeu outras duas disputas, nos pleitos seguintes. Jamais foi eleito. Depois que faleceu, ganhou um lugar na simbólica cadeira 41.
Em 2018, Conceição Evaristo foi sozinha entregar a carta de candidatura, sem padrinho, amparada por uma petição com mais de 20 mil assinaturas. Olha, não discuto o tamanho de Cacá Diegues, um dos grandes nomes do Cinema Novo, que levou a cadeira 7 com 22 votos. Mas Conceição recebeu 1 voto. Apenas. Nenhuma mulher negra havia ainda ocupado um lugar na ABL; a primeira só chegaria em 2025, com Ana Maria Gonçalves.
Nestes tempos de eleições no Brasil, em que assistimos boquiabertos a milhões de trabalhadores defenderem patifes bolsonaristas (cuja única contribuição ao debate público é desvelar quão falida é a democracia burguesa), é quase irônico perceber que as más escolhas não são uma exclusividade dos meros mortais; os imortais da Academia não me deixam mentir a respeito.
Emanoel.
